Há algo de maternal nos sorrisos que recebo da Cândida. Talvez por ter idade para ser minha mãe. Talvez pelo corte de cabelo, os lábios finos e as maçãs do rosto ossudas me lembrarem a minha avó. Seja o que for, há para mim algo de maternal que ela não partilha com o mundo que partilhamos naquele café. Se não é o sol que lhe bate nos olhos, são os colegas que não fazem nada de jeito e nos dias em que estes não lhe dão motivos para arrelias é o patronato ou as camionetas cheias de turistas chineses que são "gente que não se sabe comportar!" como ela repete a cada registo de pagamento que faz.
O mundo que partilhei com a Cândida naquele dia saudou-a com nuvens suficientes para que o sol não a incomodasse. Esse mundo, nesse dia, tinha ainda uma mulher algumas mesas à minha frente e dois homens que conversavam numa mesa afastada. A mulher de cabelo farto, olhos enormes e curiosos, lia o horóscopo numa revista. Não que precisasse, não só é dona dela própria, incluindo o seu nariz como o povo costuma dizer, mas de toda a sua vida e reconhecidamente capaz de fazer a sua própria carta astral. Atrevo-me até a dizer que, bruxa ou não, é até capaz de refazer tantas cartas quanto a vida lhe atirar.
Quis o destino, previsto ou não nas cartas, que os homens se levantassem e se cruzassem com a Cândida que levava a conta à bruxa. E nesse momento em que desenharam uma linha recta, com a Cândida numa ponta, eles, a bruxa e mais longe eu próprio, terminaram uma conversa feliz, com um sorriso e um suave beijo nos lábios.
Os olhos perplexos da Cândida seguiram-nos até à porta e o seu queixo só não seguiu o chão porque estava preso. A bruxa por seu lado levantou a cabeça quando a recta se formou, esboçou um sorriso e de seguida devolveu os olhos ao horóscopo.
"Francamente!" exclamou Cândida enquanto entregou com maus modos a conta à bruxa sem tirar os olhos da porta. "Há algum problema?" retorquiu a bruxa enquanto a ínfima felicidade que partilhou com os dois homens foi substituída, em parte pelos maus modos de Cândida e noutra pelo comportamento menos do que profissional desta. "Já viu?!" - continuou Cândida - "Até já se beijam na rua, à frente de toda a gente!" Tivesse a bruxa os poderes que a Inquisição achava que as bruxas tinham e Cândida teria sido fulminada ali mesmo mas esta bruxa é, antes de bruxa, humana e o mais que conseguiu fulminar foi um "E depois?! Fizeram-lhe algum mal?"
Não sei como acabar esta história e embora ache que a moral está passada sinto que há algo mais a escrever. A Cândida existe embora com outro nome e serve-me pequeno almoço várias vezes por semana. A bruxa também existe e considero-a, do fundo do coração e independentemente de distâncias, minha amiga. Nunca se conheceram e esta história nunca aconteceu. Desconheço por completo o que ela faria nesta situação mas em nada me espantaria que ela reagisse desta forma.
Não partilho as crenças de nenhuma das duas. No entanto há uma diferença substancial entre elas e como as suas crenças as influenciam. Cândida acha-se moralmente superior porque segue escrupulosamente um conjunto de regras que lhe foi ensinado. Não julga nem questiona essas regras mas julga e questiona quem não as segue. A bruxa não julga ninguém. Se pudesse escolher, preferiria um mundo cheio destas bruxas que partilham a felicidade de desconhecidos do que um mundo cheio de Cândidas. Aliás já o tivemos e foi feio.
Ao contrário da bruxa eu não acredito no destino, mas quis o destino que sem saber como acabar este texto fizesse uma pausa. E o destino deu-se quando li a frase "Minha religião é o amor, minha pátria é o mundo e a minha raça a humanidade."
Façam-me o favor de ser felizes e de deixar os outros serem felizes.
