Avançar para o conteúdo principal

O Homem de Aço e o Espantalho


Adoro conversar. Conversar implica que ideias que tenho na minha cabeça passem para a tua e vice-versa. Durante esta troca ideias fracas morrem, outras, de força desconhecida nascem e as que já nasceram são confrontadas e ou enfraquecem ou ficam mais fortes. Este ciclo construiu o mundo que vês à tua volta. O bom e o mau. Felizmente o bom tende a ser melhorado e o mau a ser destruído, não fossem o bom e o mau ideias.

Para se conseguir dialogar, discutir e até debater de modo a todos podermos aprender uns com os outros é necessário fazer algumas coisas que não vemos nos debates da assembleia da república nem nos programas desportivos. Infelizmente também não vejo muito no dia-a-dia. Mas eu tenho um truque tão bom que dava para escrever um livro de auto-ajuda. Não te esqueças de partilhar este post no Facebook com o famoso "Vale a pena ler!" porque é mesmo catita e tem um bónus no fim e tudo!

Sempre que conversamos cometemos erros de raciocínio chamados falácias. Existem dezenas, talvez centenas delas. Uma das mais comuns é o straw man ou, em português, o espantalho. O espantalho é um argumento próximo ou similar do argumento original mas mais fraco e fácil de refutar. Se alguma vez alguém te respondeu "Não foi isso que eu disse." é porque atacaste um espantalho.

Pessoa A: Sou a favor da interrupção voluntária da gravidez.
Pessoa B: Como é que podes defender o homicídio premeditado de crianças?

Neste exemplo o espantalho é o homicídio premeditado de crianças. A pessoa A nunca disse que o defendia. A pessoa B até pode considerar a interrupção voluntária da gravidez é um homicídio premeditado de crianças mas nesse caso está a assumir que a pessoa A considera o mesmo. A falácia do espantalho tem este problema. Assumindo que a falácia não é propositada, o que demonstra desonestidade, houve uma interpretação das palavras do outro que não reflecte a sua verdadeira posição. No mínimo a conversa é infrutífera. No máximo é desagradável.

Há uma forma de evitar espantalhos e chama-se steel man. Não sei como se chama em português por isso traduzi literalmente no título porque ficava mesmo giro! O steel man caracteriza-se por apresentar ao nosso interlocutor a sua posição ou argumento de forma a que seja aceite por ele. Isto trás enormes vantagens.
  1. Primeiro e o mais óbvio, evitamos o espantalho! Se apresentarmos o argumento da outra pessoa de uma forma tão forte que nem ela consegue discordar, é no minimo ridiculo a seguir atacarmos um espantalho;
  2. Demonstramos boa-fé e abertura para um diálogo, discussão ou debate mais produtivos;
  3. Compreendemos e aceitamos a força do argumento ou posição da outra pessoa em relação ao nosso argumento ou posição.
Da próxima vez que fores refutar um argumento de outra pessoa, experimenta dizer "Corrige-me se eu estiver errado mas o que estás a dizer é que" e de seguida explica-lhe o seu argumento por palavras tuas. É mágico!

E agora um bónus! Desde o verão que tenho usado o steel man, para ter conversas sobre temas em que eu concordo com quem está a falar comigo mas em que quero apresentar o contraditório ou, como se costuma dizer, ser advogado do diabo. Só o faço com amigos próximos que conhecem a minha posição no tema em questão mas com a conversa torna-se mais interessante e aproveitamos para compreender melhor outros pontos de vista.

O straw man é uma das piores pragas de qualquer conversa. O steel man é não só uma forma de o evitar mas também uma forma de sermos mais honestos, abertos e termos, todos juntos, ideias melhores e mais fortes.

Mensagens populares deste blogue

Quando um mosquito pousa nos teus testículos

Prometi brejeirice no Facebook e aqui estou para cumprir. Hoje também vou experimentar uma coisa nova para mim. Mais ainda, apenas a minha incomparável humildade evita que diga publicamente que esta novidade é não só pessoal mas provavelmente mundial, quiçá até da Charneca da Caparica! Vou tentar, sem rede e sem preparação, escrever um texto filosófico que, embora pequeno como sempre tento, tocará temas tão distintos quanto violência, guerra em geral e química em particular, mosquitos, testículos e também atribuição de autoria e os seus direitos. Trago assim a mim o pesado fardo de falar dos grandes temas da actualidade. O que me levou a considerar estes temas fracturantes foi um post de um amigo meu no Facebook que publico na íntegra abaixo. Foi só isto... mas "só isto" não é suficiente para as inúmeras questões que levanta, muitas delas centrais à condição humana no século XXI. Aviso desde já, mesmo correndo o perigo de perder leitores, que não vou falar da decisão d...

As infinitas discussões de Carl e Carlin

Ando há meses a pensar como posso voltar a escrever. Não parece ser um exercício particularmente difícil. Basta juntar palavras observando algumas regras gramaticais, envolver num contexto e já está! Mas por trás do meu aparente excesso de confiança, há uma constante insegurança que seja qual for o meu plano, nunca é suficientemente bom. Isto acontece-me consistentemente. Por um lado tenho uma ideia, por outro não confio no plano que tenho para executar a ideia. Sou o meu maior critico... não somos todos? Andei neste estado patético de confiante autocomiseração até reparar nele. Foi aí que me ocorreu que o podia usar para escrever! Porquê esperar que o Eu confiante convencesse o Eu crítico de que o plano é bom quando posso usar os dois? E aqui estamos nós os três. Tu, o Eu confiante e o Eu crítico. Podes argumentar que somos quatro, mas eu rejeito esse argumento porque eu (o Eu eu mesmo) só cá estou para narrar. Não me responsabilizo por nada que quer o Carl, quer o Carlin digam....

O que aprendi com o Alcorão [Textos Sagrados 1]

Esta série de posts é dedicada aos textos sagrados de diversas religiões com o único objectivo de ter uma interpretação em primeira mão. Não sou nem quero ser teólogo mas quero saber o que é que eu interpretaria destes textos sem filtros nem interpretações de outros que não eu e a minha experiência pessoal. Não está em causa a fé de ninguém mas tão somente o reconhecimento do papel central da religião na vida de biliões de seres humanos e, por consequência, na sociedade em que vivemos. Ler o Alcorão foi penoso. Pareceu-me um texto consistentemente básico com constantes mudanças de contexto, pejado de artefactos linguísticos como a mudança entre o discurso na primeira e na terceira pessoa. Interroguei-me como podia ser este texto uma das maiores obras na língua árabe e a resposta é a própria pergunta. O Alcorão é maioritariamente uma prosa poética escrita em árabe. Traduzi-lo retira-lhe o estilo e a beleza fonética e reduz muitas frases que contribuem para ambos a frases simples, ...