Avançar para o conteúdo principal

O reconhecimento do outro


Estava a ver um combate de MMA. Os dois lutadores, ensanguentados e cansados, abraçaram-se no inicio do ultimo assalto num gesto de respeito e reconhecimento profundo. Este respeito e este reconhecimento não são raros no dia-a-dia em relação aos que nos são próximos. No entanto contrastam com a falta de reconhecimento e múltiplas formas de falta de respeito em relação aos que nos estão mais afastados. Embora este fenómeno seja conhecido entre grupos que são tão afastados que chegam a rivalizar, como é o caso de países e religiões, a distância não precisa de ser assim tão grande para que o reconhecimento e o respeito desapareçam. Basta que seja um vizinho, um colega de outro departamento ou alguém de outro clube de futebol.

Este fenómeno dos ingroups e dos outgroups é conhecido em sociologia e psicologia e muito do que penso, leio e escrevo está de alguma forma ligado ao dito fenómeno. Sem o aprofundar, o ponto que é importante reter é que um ingroup tende a desumanizar os outgroups concorrentes, ou seja, elementos pertencentes a outgroups são vistos pelos elementos do ingroup como tendo menos característica positivas do ser humano (moral por exemplo), mais características negativas do ser humano (irracionalidade e imundice por exemplo).

Quando o combate acabou fui até à sala. A televisão ligada e um padre falava para a sala de estar vazia. As primeiras palavras fizeram-me parar e ouvi-lo. Fiquei absorvido e, viva a tecnologia, "rebobinei" para ouvir outra vez. E outra vez. Foi nesse momento que abri o portátil e comecei a escrever este texto. Que disse o padre?

"Generosidade como capacidade de se compadecer e prestar auxilio é uma das virtudes mais nobres que caracterizam o espirito humano. Pode ser uma pessoa de outra religião ou mesmo sem religião mas se for uma pessoa generosa nós olhamos para essa pessoa com simpatia e com admiração. Dar sem reservas, dar em liberdade, dar por amor, dar não apenas objectos ou aspectos materiais mas dar o seu tempo, a sua inteligência, a sua vontade para ajudar alguém que precisa, não é apenas um gesto mas é algo que revela um coração nobre, um coração capaz de amar."

Um dos problemas da religião enquanto fenómeno social é que torna por via do dogmatismo e do profundo sentido de grupo e de comunidade, cria profundos ingroups e outgroups generalizados e até concorrentes. Comparem este problema com a mensagem extraordinariamente inclusiva das palavras deste padre. Não só os outros (de outra religião ou mesmo sem religião) têm uma das virtudes mais nobres como nós (os desta religião) os olhamos com simpatia e admiração pela revelação de um coração nobre e capaz de amar.

Este reconhecimento e respeito do e pelo outro pelas suas acções, ou seja, aquilo que temos em comum é incrivelmente raro nas escrituras das grandes religiões. Aquilo que é comum observar-se nessas escrituras é a criação de desconfiança do outro por aquilo que nos separa. Ouvir estas palavras de um padre foi mais do que surpreendente, foi um momento de restabelecimento de fé na humanidade.

Precisamos de reconhecer que o outro que é diferente de nós não é por isso mesmo pior do que nós.

Mensagens populares deste blogue

Quando um mosquito pousa nos teus testículos

Prometi brejeirice no Facebook e aqui estou para cumprir. Hoje também vou experimentar uma coisa nova para mim. Mais ainda, apenas a minha incomparável humildade evita que diga publicamente que esta novidade é não só pessoal mas provavelmente mundial, quiçá até da Charneca da Caparica! Vou tentar, sem rede e sem preparação, escrever um texto filosófico que, embora pequeno como sempre tento, tocará temas tão distintos quanto violência, guerra em geral e química em particular, mosquitos, testículos e também atribuição de autoria e os seus direitos. Trago assim a mim o pesado fardo de falar dos grandes temas da actualidade. O que me levou a considerar estes temas fracturantes foi um post de um amigo meu no Facebook que publico na íntegra abaixo. Foi só isto... mas "só isto" não é suficiente para as inúmeras questões que levanta, muitas delas centrais à condição humana no século XXI. Aviso desde já, mesmo correndo o perigo de perder leitores, que não vou falar da decisão d...

As infinitas discussões de Carl e Carlin

Ando há meses a pensar como posso voltar a escrever. Não parece ser um exercício particularmente difícil. Basta juntar palavras observando algumas regras gramaticais, envolver num contexto e já está! Mas por trás do meu aparente excesso de confiança, há uma constante insegurança que seja qual for o meu plano, nunca é suficientemente bom. Isto acontece-me consistentemente. Por um lado tenho uma ideia, por outro não confio no plano que tenho para executar a ideia. Sou o meu maior critico... não somos todos? Andei neste estado patético de confiante autocomiseração até reparar nele. Foi aí que me ocorreu que o podia usar para escrever! Porquê esperar que o Eu confiante convencesse o Eu crítico de que o plano é bom quando posso usar os dois? E aqui estamos nós os três. Tu, o Eu confiante e o Eu crítico. Podes argumentar que somos quatro, mas eu rejeito esse argumento porque eu (o Eu eu mesmo) só cá estou para narrar. Não me responsabilizo por nada que quer o Carl, quer o Carlin digam....

O que aprendi com o Alcorão [Textos Sagrados 1]

Esta série de posts é dedicada aos textos sagrados de diversas religiões com o único objectivo de ter uma interpretação em primeira mão. Não sou nem quero ser teólogo mas quero saber o que é que eu interpretaria destes textos sem filtros nem interpretações de outros que não eu e a minha experiência pessoal. Não está em causa a fé de ninguém mas tão somente o reconhecimento do papel central da religião na vida de biliões de seres humanos e, por consequência, na sociedade em que vivemos. Ler o Alcorão foi penoso. Pareceu-me um texto consistentemente básico com constantes mudanças de contexto, pejado de artefactos linguísticos como a mudança entre o discurso na primeira e na terceira pessoa. Interroguei-me como podia ser este texto uma das maiores obras na língua árabe e a resposta é a própria pergunta. O Alcorão é maioritariamente uma prosa poética escrita em árabe. Traduzi-lo retira-lhe o estilo e a beleza fonética e reduz muitas frases que contribuem para ambos a frases simples, ...