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Porque acredito no que acredito

Quem me conhece um bocadinho melhor sabe que eu tenho uma postura aparentemente inflexível em relação a um conjunto de assuntos. Contrasta com esta aparente inflexibilidade uma total flexibilidade em relação a outro conjunto de assuntos. Parece-me quase obrigatório antes de escrever sobre outros temas que escreva sobre esta aparente inflexibilidade e a sua oposta flexibilidade, ou seja, sobre o que eu acredito e, mais importante, porque é que acredito.

Vamos começar no que é que eu acredito. Eu acredito em qualquer proposição para a qual existam evidências suficientes ou argumentos lógicos que a suportem. Reservo-me o direito de ter ou não opinião em relação a proposições que não são suportadas mas por definição não as considero verdadeiras. Isto parece catita, todo sério e tudo! Diria mesmo que qualquer pessoa que leia isto provavelmente concorda mas nesse caso porque é que não acreditamos todos nas mesmas coisas? A resposta é simples: porque "evidência" e "argumento lógico" não significam o mesmo para todas as pessoas e estes dois pontos definem o porquê.

No topo da lista do porque acredito no que acredito está o método cientifico. Um dia, tenha eu paciência, hei-de escrever sobre este fantástico avanço da humanidade que é o método cientifico, mas para me ajudar vou usar a resposta que Richard Dawkins deu a alguém que lhe perguntou porque é que devemos aceitar que a ciência nos diz a verdade. "Se basearmos medicina na ciência curamos pessoas. Se basearmos o desenho de aviões em ciência eles voam. Se basearmos o desenho de foguetões em ciência eles chegam à Lua." E se estas três frases não chegassem, Dawkins conclui com "It works... bitches!" E é isto. Ciência, mais precisamente o método cientifico, funciona.

Grande parte da minha aparente inflexibilidade vem daqui, do método cientifico e foi para me preparar para este parágrafo que usei as palavras "aparente" e "aparentemente" antes de inflexibilidade. Por exemplo, eu acredito na teoria da evolução por selecção natural. O que isto quer dizer na prática é que considerando as evidências que suportam a teoria, é altamente improvável que seja falsa. Eu não digo que é verdadeira. Eu digo que é improvável que seja falsa. Eu não sou inflexível, longe disso. Eu reconheço a possibilidade, mesmo que remota, que muitas das coisas em que acredito sejam falsas e estou disposto, perante suficientes evidências a aceitar que sejam falsas mas até lá aceito-as como verdadeiras, ou seja, aparentemente acredito nelas. Vou mais longe ainda, quando existem evidências suficientemente fortes, só ignorância destas ou desonestidade intelectual podem levar-nos a não aceitar a altíssima probabilidade de que a proposição suportada seja verdadeira.

No que toca a evidência pura e dura, o método cientifico chega. Mas há muito mais para acreditar ou não para o qual é insuficiente. E é aqui que entram os argumentos lógicos. Mais ainda, existem de certeza temas sobre os quais existe literatura cientifica que eu desconheço. Quando não existem evidências ou eu as desconheço, a única alternativa para encontrar a verdade, nem que seja a minha verdade, ou seja, uma opinião, são argumentos lógicos. Para dar um exemplo, eu desconheço qualquer ciência relacionada com homossexualidade. No entanto defendo o direito de casais homossexuais a casarem e a adoptarem crianças. Na prática eu acredito que não existe nenhuma diferença entre casais heterossexuais e homossexuais no que toca à sua participação na sociedade, seja ela qual for.

Admito que existem teorias cientificas que eu ainda não estou plenamente convencido, por exemplo, o multiverso. Pode ser ignorância minha, admito. Também admito que existem opiniões que considero verdadeiras que só mantenho porque ainda não foram confrontadas com argumentos mais fortes. Mas aquilo em que mais acredito é que tenho a capacidade, infelizmente rara, de mudar e aprender perante novas evidências e novos argumentos lógicos.

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