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Uma Guerra Santa pela Lei Bíblica

Um legislador republicano nos Estados Unidos admitiu ter redigido e distribuído um manifesto que propõem a organização e execução de um plano para imposição de lei bíblica. O manifesto tem 14 pontos e imensos sub-pontos e inclui algumas preciosidades como o tempo para a guerra é decidido por Deus. Um dos pontos mais falados nos sites que denunciaram o manifesto é que a solução pacifica é submissão à dita lei. Caso não exista submissão a alternativa é, e cito, "kill all males". Sim, leste bem. Em 2018 há um legislador norte-americano que usa o mesmo tipo de discurso tribal de há 2000 anos atrás o que não é de todo de admirar porque a justificação tem exactamente a mesma idade.

Como se isto não fosse suficientemente assustador, Matthew Shea (Matt para os amigos) postou um vídeo no seu perfil de Facebook onde se defende, pelo que tenho lido com alguma razão, de que está a ser alvo de ataques políticos. No entanto perde essa razão quase de imediato quando justifica o manifesto como uma guerra justa porque sendo, no seu entender falacioso, os Estados Unidos da América um estado cristão, Deus está do lado dos americanos.

Deixa-me ser completamente claro: Matthew Shea, um legislador republicano dos Estados Unidos da América, sonha com um mundo debaixo de lei bíblica e está disposto a ir para guerra por isso. Não existe nenhuma diferença teológica entre ele e um fundamentalista islâmico. Se tens dúvidas disto, talvez seja interessante leres o que diz a secção Personal Life da sua página na Wikipedia.

Vamos começar pelo mais óbvio: a lei bíblica é completamente incompatível com uma sociedade moderna. As sociedades que mais progrediram são humanistas e seculares e estas são incompatíveis com escravatura, misoginia e superstição. As regras descritas na Bíblia são inadequadas ou inexistentes para as necessidades de uma sociedade moderna. Começaram a deixar de fazer sentido com Galileu e tornaram-se grotescamente retrógradas quando foi queimada a última "bruxa" e nasceu o Iluminismo, já lá vão mais de 200 anos.

Podes alegar que a lei bíblica não é o que eu estou a dizer. Que sendo Matt um cristão o que ele está mesmo a dizer é estabelecer uma moral cristã de amor ao próximo. Há dois pontos contra este argumento: primeiro, ele próprio diz "kill all males" o que refuta o amor ao próximo e; segundo, o manifesto tem várias citações a Deuteronômio que é onde reside o pior que a Bíblia tem para oferecer. 

Não menos importante e talvez a cereja no topo do bolo é que só sociedades seculares podem garantir liberdade religiosa porque só estas consideram que a prática da religião seja uma escolha pessoal e dependente apenas da fé individual de cada um.

Este manifesto é um atentado à liberdade individual de todos nós, independentemente de sermos cristãos, muçulmanos, ateus, judeus, hindus, budistas ou qualquer outra religião. Este manifesto é um apelo a uma guerra santa justificada apenas por soberba e intolerância. Podemos ser tolerantes com tudo, excepto com a intolerância.

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